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Flamengo e Palmeiras em 2026: o que há por trás dos números

O Flamengo nunca teve tanta receita recorrente em nove meses e chegou a setembro com superávit de R$ 3,2 milhões. O Palmeiras teve em setembro o melhor mês do ano, com R$ 157,4 milhões de superávit, e mesmo assim fechou o acumulado em déficit.

Por Lucas Costa · 02/11/2026

A obrigação de todos os clubes que disputam as Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro é publicar suas demonstrações financeiras anuais até 30 de abril. Flamengo e Palmeiras vão além disso. O Flamengo divulga a cada trimestre, o Palmeiras a cada mês. É isso que permite ao conselheiro, patrocinador, torcedor e investidor acompanhar o clube durante a temporada. Esse é um pilar importante de governança.

Os números de 2026 ainda não são auditados. Eles permitem boas leituras, mas o retrato definitivo do ano vem na demonstração financeira completa, com auditoria independente. Com esse cuidado, comento os pontos que considero mais relevantes para o futebol brasileiro.

A comparação de cada clube é contra os números dele mesmo no mesmo período do ano anterior e, no Flamengo, uso o número do clube, sem a Fla-Flu Serviços, que opera o Maracanã.

FLAMENGO: receita recorde, mas resultado baixo

Flamengosuperávit de R$ 3,2 mi

Efeito de cada linha no resultado, jan-set/2026 contra jan-set/2025, em R$ milhões (só o clube)

O que pesou
Venda de atletas*−219,2
Performance e prêmios−161,9
Amortização de atletas−97,4
Direito de imagem−43,1
Salários e impostos−29,0
Resultado financeiro−21,6
O que ajudou
Patrocínio e licenciamento+148,4
Transmissão fixa+40,2
Bilheteria e sócio+38,2
Gastos com jogos+19,2
Demais linhas+5,2
Resultado jan-set/2026: superávit de R$ 3,2 milhões
* Venda de atletas líquida da baixa do custo de aquisição e dos gastos com negociação. Valores do clube, sem consolidar a Fla-Flu Serviços. Fonte: Relatório de Transparência e DFs do 3º trimestre de 2026 do Flamengo (não auditadas). Elaboração: LC Consultoria.

O que ajudou foi a receita recorrente. Patrocínio e publicidade cresceram R$ 110,8 milhões, alta de 43,5%. Transmissão fixa somou R$ 40,2 milhões a mais, patrocínio e licenciamento R$ 37,6 milhões, bilheteria e sócio-torcedor R$ 38,2 milhões juntos. A receita recorrente de R$ 1,06 bilhão é recorde, uma alta de 10,2% em relação ao mesmo período do ano passado.

O que pesou se concentra em três blocos.

  1. Venda de atletas: R$ 219,2 milhões a menos, já descontados os custos.
  2. Performance e premiações: R$ 161,9 milhões a menos. A base de 2025 incluía o Mundial de Clubes.
  3. Amortização de atletas: R$ 97,4 milhões a mais, alta de 49,8%.

Sobre amortização de atletas, vale rever esse artigo que escrevi detalhadamente sobre o tema.

Na revisão do orçamento, o clube apontou três motivos para o ajuste, sendo a venda de atletas abaixo do orçado, receita do Maracanã abaixo do previsto (naming rights) e a compra do Lucas Paquetá no início do ano.

PALMEIRAS: o melhor mês do ano e o acumulado no vermelho

Palmeirassuperávit de R$ 328,9 mi virou déficit de R$ 38,7 mi

Efeito de cada linha no resultado, jan-set/2026 contra jan-set/2025, em R$ milhões

O que pesou
Venda de atletas*−265,6
Premiações−145,9
Amortização de atletas−76,3
Direito de imagem−30,1
Despesas gerais−28,5
Bilheteria−7,2
O que ajudou
Resultado financeiro+95,1
Pessoal+36,4
Transmissão e patrocínio+31,4
Jogos e baixas+22,0
Demais linhas+1,1
Resultado jan-set/2026: déficit de R$ 38,7 milhões
* Linha de rendas diversas do futebol profissional, onde o clube passou a registrar a negociação de atletas em 2026; em 2025, somada à antiga linha de negociação. Fonte: balancetes de setembro de 2025 e de 2026 do Palmeiras (não auditados). Elaboração: LC Consultoria.

De um superávit de R$ 328,9 milhões até setembro de 2025 para um déficit de R$ 38,7 milhões. A venda de atletas e as rendas diversas do futebol trouxeram R$ 265,6 milhões a menos. As premiações, R$ 145,9 milhões a menos, novamente efeito do Mundial. A amortização de atletas subiu R$ 76,3 milhões, alta de 47,9%, o mesmo movimento do Flamengo.

Do lado positivo, o resultado financeiro melhorou R$ 95,1 milhões (sem nota explicativa) e a despesa com pessoal caiu R$ 36,4 milhões.

O modelo do Palmeiras tem um valor importante, pois conseguimos comparar o realizado com o planejado mês a mês. Até setembro, o orçamento previa superávit de R$ 40,2 milhões. O realizado foi déficit de R$ 38,7 milhões com receita 11% abaixo do orçado e despesa 6,1% acima.

Palmeirasresultado acumulado em 2026, realizado contra orçado

Superávit ou déficit total acumulado no ano, em R$ milhões

100500(50)(100)(150)(200)R$ milhõesjanfevmarabrmaijunjulagosetoutnovdez(196,1)(38,7)11,2Orçado (acumulado)Realizado (acumulado)100500(50)(100)(150)(200)R$ milhõesjanfevmarabrmaijunjulagosetoutnovdez(196,1)(38,7)11,2Orçado (acumulado)Realizado (acumulado)
Fonte: Orçamento 2026 e balancetes mensais de 2026 do Palmeiras. Receita e despesa do gráfico do clube incluem o resultado financeiro. Elaboração: LC Consultoria.

O maior desvio veio das negociações de atletas. É natural, pois esse é um forte vetor de receita do clube nos últimos anos e o futebol brasileiro de uma forma geral vendeu menos que o imaginado.

O quarto trimestre decide o ano

Três meses deveriam pesar 25% do ano. No futebol, pesam mais.

Representatividade de outubro a dezembro em cada receita do ano

Ex.: 72,9% de toda a premiação do Palmeiras em 2024 entrou no último trimestre

2024202525%: peso de 3 meses num ano linear
31,2%
34,1%
56,8%
40,5%
25,0%
20,9%
72,9%
48,3%
Flamengoreceita líquida
Flamengoperformance e prêmios
Palmeirasreceita líquida
Palmeiraspremiações
Participação de outubro a dezembro no total de cada ano, calculada pela diferença entre o ano e o acumulado até setembro. Fonte: DFs e balancetes dos clubes. Elaboração: LC Consultoria.

No Flamengo, outubro a dezembro concentram 31,2% da receita líquida de 2024 e 34,1% em 2025. Do que o clube recebeu em performance e premiações no ano, 56,8% e 40,5% entraram nesses três meses.

No Palmeiras, foram 72,9% e 48,3% de toda a premiação do ano. Isso acontece por conta do calendário. As semifinais e finais da Libertadores e Copa do Brasil, as fases que pagam as maiores premiações, acontecem no último trimestre. Na Libertadores, o campeão recebe US$ 25 milhões pela conquista, segundo a Conmebol, e pode passar de US$ 40 milhões somando todas as fases. Na Copa do Brasil, a CBF paga R$ 78 milhões ao campeão. Os dois clubes chegaram à semifinal da Libertadores.

O fim de ano também pesa do lado da despesa. É quando entram o 13º salário e os bônus pagos ao elenco pelo desempenho. Em 2025, o Flamengo pagou de outubro a dezembro 41,6% de toda a folha do ano. No Palmeiras, o orçamento de 2026 prevê um déficit de R$ 29 milhões para o trimestre, sem venda de atletas, e com R$ 53,2 milhões em premiação em dezembro. O ano foi orçado para fechar com superávit de R$ 11,2 milhões. Como até setembro o resultado é um déficit de R$ 38,7 milhões, chegar a essa meta exigiria um superávit de R$ 49,9 milhões no último trimestre, o que diverge do déficit previsto. Nada disso é sinal de alarme. Os clubes possuem baixa ou nenhuma dívida bancária, aquela que cobra juros e vira uma bola de neve até sufocar a operação. A atenção está no curto prazo, no que ainda se deve por atletas contratados.

O Flamengo tem R$ 352 milhões a pagar por atletas nos próximos 12 meses. O Palmeiras tem R$ 531,9 milhões em contas a pagar de curto prazo, mas o balancete não abre quanto disso é de atletas e custos de negociação. Para clubes com receita anual acima de R$ 1 bilhão, são compromissos administráveis, principalmente pela atuação desportiva que estão entregando.

GOVERNANÇA À VISTA DE TODOS

Ambos os clubes reúnem o que ainda falta em boa parte do mercado: diligência na gestão, orçamento aprovado e ajustado conforme necessidade, rotina na divulgação de resultados e modelo de negócio claro com objetivo no longo prazo.

O balancete é a fotografia do meio do caminho. Mostra a rota e por isso é importante. Mas o documento que diz onde o clube chegou é a demonstração financeira anual, com auditoria independente, que será entregue até 30 de abril de 2027.

Vale reforçar que os clubes das Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro estão sujeitos ao cumprimento das regras do SSF. Farei o acompanhamento por aqui e sigo confiante na melhoria da estrutura de governança e capital dos clubes no médio prazo.

Fontes

Os números vêm dos documentos publicados pelo Flamengo e pelo Palmeiras e, nas premiações, pela Conmebol e pela CBF. Os documentos de 2026 não são auditados.

As opiniões deste artigo são do autor. O meutime.net não avalia a gestão de nenhum clube.