Flamengo e Palmeiras em 2026: o que há por trás dos números
O Flamengo nunca teve tanta receita recorrente em nove meses e chegou a setembro com superávit de R$ 3,2 milhões. O Palmeiras teve em setembro o melhor mês do ano, com R$ 157,4 milhões de superávit, e mesmo assim fechou o acumulado em déficit.
A obrigação de todos os clubes que disputam as Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro é publicar suas demonstrações financeiras anuais até 30 de abril. Flamengo e Palmeiras vão além disso. O Flamengo divulga a cada trimestre, o Palmeiras a cada mês. É isso que permite ao conselheiro, patrocinador, torcedor e investidor acompanhar o clube durante a temporada. Esse é um pilar importante de governança.
Os números de 2026 ainda não são auditados. Eles permitem boas leituras, mas o retrato definitivo do ano vem na demonstração financeira completa, com auditoria independente. Com esse cuidado, comento os pontos que considero mais relevantes para o futebol brasileiro.
A comparação de cada clube é contra os números dele mesmo no mesmo período do ano anterior e, no Flamengo, uso o número do clube, sem a Fla-Flu Serviços, que opera o Maracanã.
FLAMENGO: receita recorde, mas resultado baixo
superávit de R$ 3,2 mi
Efeito de cada linha no resultado, jan-set/2026 contra jan-set/2025, em R$ milhões (só o clube)
O que ajudou foi a receita recorrente. Patrocínio e publicidade cresceram R$ 110,8 milhões, alta de 43,5%. Transmissão fixa somou R$ 40,2 milhões a mais, patrocínio e licenciamento R$ 37,6 milhões, bilheteria e sócio-torcedor R$ 38,2 milhões juntos. A receita recorrente de R$ 1,06 bilhão é recorde, uma alta de 10,2% em relação ao mesmo período do ano passado.
O que pesou se concentra em três blocos.
- Venda de atletas: R$ 219,2 milhões a menos, já descontados os custos.
- Performance e premiações: R$ 161,9 milhões a menos. A base de 2025 incluía o Mundial de Clubes.
- Amortização de atletas: R$ 97,4 milhões a mais, alta de 49,8%.
Sobre amortização de atletas, vale rever esse artigo que escrevi detalhadamente sobre o tema.
Na revisão do orçamento, o clube apontou três motivos para o ajuste, sendo a venda de atletas abaixo do orçado, receita do Maracanã abaixo do previsto (naming rights) e a compra do Lucas Paquetá no início do ano.
PALMEIRAS: o melhor mês do ano e o acumulado no vermelho
superávit de R$ 328,9 mi virou déficit de R$ 38,7 mi
Efeito de cada linha no resultado, jan-set/2026 contra jan-set/2025, em R$ milhões
De um superávit de R$ 328,9 milhões até setembro de 2025 para um déficit de R$ 38,7 milhões. A venda de atletas e as rendas diversas do futebol trouxeram R$ 265,6 milhões a menos. As premiações, R$ 145,9 milhões a menos, novamente efeito do Mundial. A amortização de atletas subiu R$ 76,3 milhões, alta de 47,9%, o mesmo movimento do Flamengo.
Do lado positivo, o resultado financeiro melhorou R$ 95,1 milhões (sem nota explicativa) e a despesa com pessoal caiu R$ 36,4 milhões.
O modelo do Palmeiras tem um valor importante, pois conseguimos comparar o realizado com o planejado mês a mês. Até setembro, o orçamento previa superávit de R$ 40,2 milhões. O realizado foi déficit de R$ 38,7 milhões com receita 11% abaixo do orçado e despesa 6,1% acima.
resultado acumulado em 2026, realizado contra orçado
Superávit ou déficit total acumulado no ano, em R$ milhões
O maior desvio veio das negociações de atletas. É natural, pois esse é um forte vetor de receita do clube nos últimos anos e o futebol brasileiro de uma forma geral vendeu menos que o imaginado.
O quarto trimestre decide o ano
Três meses deveriam pesar 25% do ano. No futebol, pesam mais.
Representatividade de outubro a dezembro em cada receita do ano
Ex.: 72,9% de toda a premiação do Palmeiras em 2024 entrou no último trimestre
receita líquida
premiaçõesNo Flamengo, outubro a dezembro concentram 31,2% da receita líquida de 2024 e 34,1% em 2025. Do que o clube recebeu em performance e premiações no ano, 56,8% e 40,5% entraram nesses três meses.
No Palmeiras, foram 72,9% e 48,3% de toda a premiação do ano. Isso acontece por conta do calendário. As semifinais e finais da Libertadores e Copa do Brasil, as fases que pagam as maiores premiações, acontecem no último trimestre. Na Libertadores, o campeão recebe US$ 25 milhões pela conquista, segundo a Conmebol, e pode passar de US$ 40 milhões somando todas as fases. Na Copa do Brasil, a CBF paga R$ 78 milhões ao campeão. Os dois clubes chegaram à semifinal da Libertadores.
O fim de ano também pesa do lado da despesa. É quando entram o 13º salário e os bônus pagos ao elenco pelo desempenho. Em 2025, o Flamengo pagou de outubro a dezembro 41,6% de toda a folha do ano. No Palmeiras, o orçamento de 2026 prevê um déficit de R$ 29 milhões para o trimestre, sem venda de atletas, e com R$ 53,2 milhões em premiação em dezembro. O ano foi orçado para fechar com superávit de R$ 11,2 milhões. Como até setembro o resultado é um déficit de R$ 38,7 milhões, chegar a essa meta exigiria um superávit de R$ 49,9 milhões no último trimestre, o que diverge do déficit previsto. Nada disso é sinal de alarme. Os clubes possuem baixa ou nenhuma dívida bancária, aquela que cobra juros e vira uma bola de neve até sufocar a operação. A atenção está no curto prazo, no que ainda se deve por atletas contratados.
O Flamengo tem R$ 352 milhões a pagar por atletas nos próximos 12 meses. O Palmeiras tem R$ 531,9 milhões em contas a pagar de curto prazo, mas o balancete não abre quanto disso é de atletas e custos de negociação. Para clubes com receita anual acima de R$ 1 bilhão, são compromissos administráveis, principalmente pela atuação desportiva que estão entregando.
GOVERNANÇA À VISTA DE TODOS
Ambos os clubes reúnem o que ainda falta em boa parte do mercado: diligência na gestão, orçamento aprovado e ajustado conforme necessidade, rotina na divulgação de resultados e modelo de negócio claro com objetivo no longo prazo.
O balancete é a fotografia do meio do caminho. Mostra a rota e por isso é importante. Mas o documento que diz onde o clube chegou é a demonstração financeira anual, com auditoria independente, que será entregue até 30 de abril de 2027.
Vale reforçar que os clubes das Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro estão sujeitos ao cumprimento das regras do SSF. Farei o acompanhamento por aqui e sigo confiante na melhoria da estrutura de governança e capital dos clubes no médio prazo.
